Arnaldo Niskier

Foi realizado um Seminário intitulado "Atualidade de San Thiago Dantas", na Associação Comercial do Rio de Janeiro, com o apoio da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro e do Instituto San Thiago Dantas, a propósito dos 40 anos da morte daquele grande homem que nos deixou prematuramente aos 53 anos de idade.

Raramente - foi opinião generalizada dos quase 200 presentes - viu-se tamanha demonstração da erudição e de amor a uma personalidade forte da vida brasileira. Falaram Marcílio Marques Moreira, Luís Dulci, Celso Amorim, Celso Láfer, Mário Gibson Barbosa (que chegou a verter lágrimas com as suas lembranças do agradável convívio), Afonso Arinos e Adacir Reis, este presidente do Instituto San Thiago Dantas. Foi uma extraordinária emulação entre os oradores, como se houvesse mesmo uma necessidade dessa catarse cultural. 

Foram lembradas passagens de San Thiago Dantas na vida acadêmica, grande professor que foi da Faculdade de Direito, também a ação política, em que ele chegou ao cargo de ministro das Relações Exteriores. Com pensamentos objetivos sobre o emprego da democracia interna e os conceitos de liberdade, no mundo exterior. 

Os caminhos de San Thiago foram sempre transparentes e bem delineados. Sua frase lapidar resumia-se no seguinte: "Deve-se tirar as coisas da obscuridade e levar à luz, com o emprego da inteligência." Chegou a ser considerado talvez o maior humanista brasileiro do século XX. Saudado pelo falecido acadêmico Celso Furtado, que afirmou: "Com ele será possível alargar o espaço cultural em que se exerce a ação criadora do homem, para que possamos usar o dom da liberdade para a tarefa de redefinição de valores e identificação dos fins." Merecer esse comentário do maior dos nossos economistas é uma honra única.

Vale lembrar o incomparável texto sobre D.Quixote: um apólogo da alma ocidental., reeditado pela Universidade de Brasília (original de 1947), em que San Tiago recorda o papel da obra de arte, da cultura, para tornar o mundo e o próprio homem mais inteligíveis. Tratou o Quixote "como símbolo, homem heróico, cujas ações frutificam pelo exemplo e pela força espiritual que irradiam".

Apresentou uma densa floresta de reflexões, discutindo o sentido e o valor da aventura do extraordinário fidalgo, com os seus sonhos impossíveis. Era o mais perfeito dos cavaleiros andantes, vivendo a dificuldade de separar adequadamente os limites da virtude e da loucura. Daí as muitas cenas em que prevalece o ridículo, apresentando o herói louco com o seu fiel amor dilacerado.

D. Quixote, com o seu fiel escudeiro Sancho Pança, viveu o heroísmo isento de todo êxito, muito mais martírio, como era comum nos romances de cavalaria da época. É de San Tiago a inferência: "O heroísmo do cavaleiro não está nos seus feitos, está nas suas disposições de alma." E assim podem ser explicadas as suas visíveis qualidades: castidade, idealismo, desinteresse, sacrifício, bondade compassiva, mas isenta de emoção.

Tinha suas alucinações ou sonhos, como a clássica luta contra os moinhos de vento, mas sempre foi guiado pela integridade da sua incorruptível consciência. E assim ele se encontrou com o amor de Dulcinéia, símbolo e síntese do sentimento cavalheiresco. Viveu intensamente esse sonho ou o que o autor chama de enamoramiento. D. Quixote morreu com uma rigorosa fidelidade ao que se chamava de amor-paixão, que San Tiago Dantas soube interpretar no Brasil como ninguém. Não terá sido ele também, pela sua identificação, um D.Quixote moderno? 
 
Jornal do Comércio (Rio de Janeiro) 20/12/2004