“Conheci San Tiago em Paris. Formamos logo um grupo. E não sei por que resolvemos que naquela noite iríamos percorrer os night-clubs de Paris. O que fizemos até o amanhecer. Onde os violinos cantavam finos demais e perto demais de nós, saíamos. Mas acontece que em noite longa bebe-se. E eu não sei beber. Se bebo, ou me dá sono ou choro um pouco. Mas se continuo a beber, começo a ficar brilhante, a dizer coisas. E não sei o que é pior. Nessa noite aconteceram ambas. San Tiago, se era de chorar, não demonstrava. Sua Lucidez na verdade era um grande controle e não frieza.(...)

Até que começou a madrugar, a quase amanhecer devagar. Ninguém tinha sono mas era a hora. Fomos andando. E San Tiago descobriu nas esquinas de Paris as primeiras vendedoras de flores. Não posso dizer quantas rosas ele comprou para mim. Sei que eu andava pelas ruas sem poder carregar tantas, e à medida que eu andava as rosas caiam pelo chão. Se jamais fui bonita  foi naquele amanhecer de Paris com rosas caindo de meus braços plenos. E um homem que enfeita uma mulher não tem lucidez fria.(...)

Passou-se o tempo. Quando ele ia a Washington dava-me a alegria de me telefonar na mesma hora. Jantava lá em casa, ficávamos conversando até mais de três horas da madrugada.”

Fonte:
A descoberta do mundo – Clarice Lispector
Rio de Janeiro: Rocco, 1999
Páginas: 65-66