“Não havia no Brasil, nome mais ilustre do que este.

Francisco Clementino de San Tiago Dantas foi uma personalidade excepcional.

Era professor, antes de tudo: professor por vocação natural. Lecionou Direito Civil na Faculdade Nacional da Universidade do Brasil (depois chamada Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ). Lecionou Direito Romano na Pontifica Universidade Católica (PUC) do Rio e na Faculdade de Direito da Universidade de Paris, no Panthéon da Sorbonne. Suas aulas causavam deslumbramento. Eram simples, de clareza meridiana, e fascinavam pela beleza do discurso. Eram preleções de uma inteligência lúcida, tranqüila, segura de sua ciência – de um coração apaixonado por seus alunos. Os estudantes se tornavam seus discípulos e seguidores.

Era advogado. Foi um advogado notabilíssimo. Foi o advogado mais célebre, em seu tempo, nas áreas de Direito Civil e do Direito Comercial. Ele inaugurou, em nosso meio, um gênero novo de advogado: o advogado específico da empresa.

Propalava-se que seu escritório chegou a ter “um faturamento milionário”.

Escreveu dez livros. Sua obra mais conhecida é Conflito de vizinhança. Publicou uma infinidade de trabalhos em jornais e revistas, nacionais e estrangeiros.

Sua cultura parecia não ter limites. Ele surpreendia as pessoas com a revelação, não só de sabedoria na interpretação das leis, mas também da multifária messe de seus conhecimentos especializados. De fato, em muitas oportunidades, ele mostrou ser mestre, inesperadamente, em áreas particulares e técnicas de alta indagação. Por exemplo, sendo apenas doutor em Direito, era técnico inigualável em finanças públicas.

Mas, a meu ver, o vigor extraordinário e o brilho de sua cultura provinham de um fato primordial: San Tiago Dantas era filósofo. Era um pensador, familiarizado com a Metafísica, a Cosmologia, a Ética, a Lógica. Lera gregos. Lera Santo Agostinho. Enfronhava-se na Escolástica. Estudara os modernos, desde Descartes a Spinoza. Era um filósofo jurista, um jurista filósofo. Nisto é que residia a causa de sua costumeira advertência: “Para qualquer ramo do saber, a estruturação filosófica é imprescindível.”

Era amigo dos poetas. Encontrava-se freqüentemente com Augusto Frederico Schmidt, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Geraldo Melo Mourão. Eu me perguntava a mim mesmo sobre se ele próprio não seria, em segredo, autor de poemas ocultos.

Nos atos comuns da vida, San Tiago Dantas manifestava pelo próximo, rico ou pobre, um respeito sem senão. Famoso, seu charme individual. Dizia-se que seu poder de sedução era irresistível.”

Fonte:
A folha dobrada: lembranças de um estudante.
Goffredo Telles Junior
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999
Paginas: 764-765